Monday, January 30, 2006

Fazem falta os véio ranzinza (3m1s)

Eu sempre achei muito bizarro esse negócio de jogos violentos, esses video-games onde se atira com metralhadoras, se lançam granadas, esquarteja-se, atropela-se e mutila-se. São todas coisas teoricamente indesejáveis, desagradáveis e que não deveriam ocorrer nem em pensamento, que dirá em realidade virtual, esses pensamentos materializados.

Sim, essas coisas existem e sempre existiram na vida real, estamos cercados delas, uns mais, outros menos, outros nada. Mas, sinto muito, criançada, não são práticas nem sensações que se deva estimular, especialmente nos jovens. Porque não são desejáveis. Elas não podem ocupar tanto tempo nem tanto tutano de um indivíduo, especialmente nos anos de formação do ser humano. Queremos eliminá-las da sociedade.

Ninguém quer ser esquartejado, nem ninguém deveria querer esquartejar. Tanto é que, muito antes de inventarem o video-game, os criminosos hediondos eram uma raridade tão rara que viravam lendas urbanas ou celebridades, tipo o londrino Jack, o Estripador, e Chico Picadinho, fascínora paulistano de meados do século passado.

Me desculpem, mas, sendo bem hortodoxo, antiquado e talvez até retrógrado, quiçá reacionário, cuíca ditatorial ou coisa pior, os adultos têm que botar limites na realidade virtual da moçada. Como diria meu professor de Desenho Técnico, "não confundam liberdade com libertinagem". Tem tanto coisa pra se botar na cabeça de um ser humano, pra quê ficar colocando essas barbaridades?!?! Jesus Cristo!!!

Estou me sentindo um ancião de 70 anos, sentado numa cadeira de balanço, dando bengaladas na cabeça do neto que vive puxando o rabo do gato. Aquele véio ranzinza de 163 anos, fundador da TFP, que passa na frente de uma lan house ou um ciber café, entra pra ver o que tá acontecendo e mete a bengala, monitor por monitor.

Um véio de 95 anos. Não sei se é ranzinza, mas é bacana (Foto: João Estêvão A. Freitas)

É talvez por falta desse tipo de velho com voz é que o mundo tenha dado essa leve degringolada radical que ora assistimos. A obsolescência dos conselhos dos velhos, o esquecimento e a falta de convívio entre as gerações é que leva a esses descaminhos por onde vamos de forma cada vez mais veloz e estarrecedora.

As mudanças não esperam mais que os velhos morram pra acontecer. Elas acontecem à revelia dos velhos. Porque os velhos não importam tanto quanto antes. Eles não nos sustentam mais tanto quanto antes, eles não têm mais o poder patriarcal nas mãos. Não existem mais conselhos de anciãos e não são a razão e a experiência quem decide as coisas mais. O$ valore$ mudaram. O equilíbrio entre o ímpeto e a sabedoria foi rompido.

Por tudo isso e mais um pouco, quando aparece um deputado com um projeto de lei que proíbe a venda de jogos violentos no Brasil, eu apóio. Mesmo sendo esse deputado do partido de maior bancada evangélica no Congresso. Eu apóio. Mesmo que ele seja a favor dos transgênicos, eu apóio. Mesmo que ele coma picadinho de criancinha, eu apóio.



Venda de jogos violentos pode ser proibida
Segunda-feira, 30 janeiro de 2006 - 09:48
Agência Câmara
A Câmara analisa o Projeto de Lei 6268/05, do deputado Carlos Nader (PL-RJ), que proíbe a comercialização de jogos eletrônicos violentos, conforme classificação do Ministério da Justiça.

A proposta também proíbe a venda de jogos que incentivem a criminalidade e prevê multa de 3 mil Ufirs aos infratores.

Carlos Nader refuta o argumento de que esses jogos ajudam a lidar com emoções, como a agressividade e a prepotência. Segundo ele, muitos estudiosos acreditam que tais programas criam, na verdade, "uma geração de crianças e adolescentes com deficiência de imunização à violência adquirida" - isto é, pessoas que aprendem a associar violência e prazer.

Tramitação

A proposta tramita em conjunto com o PL 1654/96, que proíbe a fabricação, importação e comercialização de jogos eletrônicos e programas de computador de conteúdo obsceno ou violento; e com o PL 1070/95, que detalha os crimes cometidos na divulgação de material pornográfico através de computadores.

Esses projetos já foram aprovados na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática e serão analisados pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Depois, seguem para o Plenário.

Friday, January 27, 2006

E tu acha isso certo!? (4m2s)

Bruna minha amiga tem me ajudado um tanto neste momento de incapacidade temporária. Desde que tombei de bike no sábado de manhã, ela tem vindo aqui trocar as fraldas geriátricas e tirar as teias de aranha do teto, sempre trazendo um ranguinho pra nóis mandá e um dvdzinho pra nóis vê.

Na terça à noite, depois de comermos um prato entitulado Frango Feliz, e de vermos Um violinista que vem do mar (o bonequinho do Globo sorriu porque ele gosta muito de água com açúcar), já impaciente com minha insegurança quanto ao processo cicatrizacional, Bruna respirou fundo e resolveu me levar ao centro de referência hospitalar Miguel Couto. Trata-se de um avançadíssimo centro médico destinado às classes proletárias da zona sul carioca. O motivo da visita seria apenas verificar se o processo ía normal, se o inchaço no pé era inflamação ou pressão, se o pé tinha que ficar pra cima ou pra baixo, se podia pisar, se podia mexer, se o pus era normal, se precisava fazer enxerto e coisas do gênero. Como se já fossem duas da madrugada, perguntei a Bruna se não seria mais prudente esperar amanhecer. Afinal de contas, coisas terríveis acontecem de madrugada, e não seria muito alegre pro nosso Frango Feliz ter de ver as atrocidades que poderiam estar nos esperando no PS. E o Violinista que tinha vindo do mar tinha deitado tanta água com açúcar em nossos coraçõezinhos...

Determinada, com a mochila nas costas, Bruna - que adora um programinha hospitalar - foi assertiva e me convenceu. - Mas, Bruna, acho que o médico vai ficar puto porque eu to indo só 3 dias depois do ocorrido e justo às duas da madrugada... Confiante na classe médica, Bruna não hesitou, chamamos um táxi e seguimos pro Miguel Couto. Lá chegando, não havia sinais de catástrofes noturnas. O único impecilho à nossa entrada eram os funcionários da limpeza que estavam desinfectando o hall de entrada, no ritual conhecido como a Lavagem das Escadarias do Miguel Couto. Esperamos um pouco na calçada com outros familiares. Não adiantaria entrarmos, pois não havia ninguém no guichê. Assim que vimos a atendente retomar seu posto e a água de cheiro escorreu pra sarjeta, entramos.


- Moça, ele caiu da bicicleta e machucou o pé. A moça, uma funcionária pública daquelas com o óculos na ponta do nariz, nos olhou com ternura e lentamente começou a procurar dentre os carimbos que ocupavam o tampo da mesa aquele que melhor se adequava às nossas necessidades. Ortopedia, tuchou na ficha.
- Não moça, não foi osso, foi ferida, olha aqui.
A moça olhou, fez uma cara de felicidade, riscou o Ortopedia e escreveu PS em cima.

Passamos então à etapa seguinte, às portas das entranhas do hospital.
Um senhor, este sim muito simpático, nos encaminhou:
- Ortopedia, esquerda, direita!
- Não, moço, é PS, olha aqui.
- Ah, PS é aqui mesmo então nesta fila (enoooorme).
Lembrei do nosso Frango Feliz e perguntei - E a Ortopedia?
- É ali atrás (sem sinal de fila).
- Então é Ortopedia!
- Esquerda, direita.

Chegando à Ortopedia, nos deparamos com quatro pessoas sentadas, à espera. Lhes perguntamos algo e eles apontaram para o fim do corredor, donde se via uma pessoa toda de branco, com um jaleco, nos fitando com aquela cara de plantonista às duas da madrugada. Ele deu um passo atrás, mas já era tarde, já o tínhamos visto. Esperamos que viesse em nossa direção, pois estavamos à porta da Ortopedia. Lentamente veio caminhando o doutor, um rapaz bem nutrido, cujo perfil Bruna viria a resumir como "playboizinho de merda". Lhe entreguei a ficha, ele me mediu e se encaminhou para o consultório. Fomos atrás. Já que a luz do consultório não acendia, ele resolveu me examinar ali no corredor mesmo.

Lhe expliquei a situação. Em vez de bocejar, o doutor soltou: - E tu acha isso certo!? Faz 3 dias que tu se machucou e tu vem aqui às duas da madrugada!!! (eu ri)
- Desculpa, doutor, fui eu que insisti para ele vir.
- Tá tudo bem aí. Não tem sinal de infecção. Tá tudo normal. É só lavar com água e sabão.
- Quer dizer que tá tudo bem? O inchaço, o pus, tudo em ordem?
O doutor confirmou e, como já tínhamos atapalhado muito, pedimos desculpas pelo inconveniente e resolvemos vir embora. Eu, mais contente que o Frango porque o processo cicatrizacional seguia seu curso normal. Bruna, puta da vida com a receptividade do playboizinho de merda.

Compramos uma breja e fomos pra casa comemorar e esquecer. Mas esta frase continua ecoando na minha cabeça: E tu acha isso certo?! (há quem diga que ele me passava um pito para o meu próprio bem, como quem diz "tem que se cuidar, menino!!! tem que vir na hora", ou "esta hora da madrugada é para emergências! tu pode estar tirando a vez de alguém que realmente precisa ser atendido". mas como não tinha ninguém na fila, o tom da frase e a cara de sono diziam "seo mané! tava tirando meu ronco e tu vem aqui atrapalhar com esta porra desta ferida, caralho!!!)

Saturday, January 14, 2006

o tempo é justo (25s, mas vareia)

todos envelhecemos juntos
uns antes, outros depois,
mas vamos todos indosos

há quem quede forte,
quem case e goste
quem encontre a morte

tristes que se alegram
conforme anda o bonde
seguem, riem e aprendem

com um cabelo que cai,
um dente que escurece,
uma subida que não vai

de um tudo vareia
sob a batuta do tempo
que instrui e dá peia

dos anos que faltam,
arrisco e compartilho,
só as saudades escapam

do porvir, amigos,
que há de ser belo,
me basta que estejam

Tomou-me (0,3s)

À preguiça entreguei-me!