Friday, March 10, 2006

O bicho-papão existe! (1m18s)

Um adulto e duas crianças escolhiam doces numa bambucha no Morro do Xará. Eram um menino, uma menina e o jovem que os levara. Era noite, umas oito. As crianças escolhiam balas e pirulitos sob a supervisão do adulto e do vendedor. A menina queria algo que parecia ser desaconselhado pelo adulto. Começava a fazer birra, quando a vinheta da realidade chamou a atenção de todos. Era o William Bonner que começava a explicar o que acontecera no Brasil e no mundo naquele dia.

- Fica quieta, fulana!

Logo na escalada do jornal, as rajadas do exército numa outra favela da cidade invadiram o ambiente, dominando inclusive o jogo de cartas de mais uns cinco adultos numa mureta ao lado. Subitamente, todos ficaram estáticos, mudos. As rajadas da TV saiam de trás do balcão gradeado do boteco e atingiam as paredes da viela, iluminada por uma fieria de lâmpadas com bojos de garrafa PET.

-Podem ficar tranquilos porque eu já liguei pra Brasília e tá tudo certo -, tentava descrontrair um dos jogadores, sem concluir o raciocínio. Fora interrompido por uma outra rajada da TV na viela. Provavelmente, queria dizer que ali não haveria invasão das tropas nacionais à procura do armamento roubado dum batalhão desses da corporação.

As crianças concluiam a seleção de doces. O menino já tinha todas as balas que queria, e o adulto estava com pressa para voltar para casa. A menina jogava um caô no vendedor para ver se conseguia dele aquilo que o adulto não quisera comprar. Os dois já iam andando pra casa, dando as costas para o balcão onde a pequena se pendurava nas pontas dos pés:

- Vamos, fulana... Vamos embora.
- Vem fulana!
- Bora, fulana, olha que a polícia vem vindo aí...
- É, a polícia vai pegar ela, né?!
- Vamos, fulano, vamos embora porque a polícia vai pegar a fulana.

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