Friday, January 27, 2006

E tu acha isso certo!? (4m2s)

Bruna minha amiga tem me ajudado um tanto neste momento de incapacidade temporária. Desde que tombei de bike no sábado de manhã, ela tem vindo aqui trocar as fraldas geriátricas e tirar as teias de aranha do teto, sempre trazendo um ranguinho pra nóis mandá e um dvdzinho pra nóis vê.

Na terça à noite, depois de comermos um prato entitulado Frango Feliz, e de vermos Um violinista que vem do mar (o bonequinho do Globo sorriu porque ele gosta muito de água com açúcar), já impaciente com minha insegurança quanto ao processo cicatrizacional, Bruna respirou fundo e resolveu me levar ao centro de referência hospitalar Miguel Couto. Trata-se de um avançadíssimo centro médico destinado às classes proletárias da zona sul carioca. O motivo da visita seria apenas verificar se o processo ía normal, se o inchaço no pé era inflamação ou pressão, se o pé tinha que ficar pra cima ou pra baixo, se podia pisar, se podia mexer, se o pus era normal, se precisava fazer enxerto e coisas do gênero. Como se já fossem duas da madrugada, perguntei a Bruna se não seria mais prudente esperar amanhecer. Afinal de contas, coisas terríveis acontecem de madrugada, e não seria muito alegre pro nosso Frango Feliz ter de ver as atrocidades que poderiam estar nos esperando no PS. E o Violinista que tinha vindo do mar tinha deitado tanta água com açúcar em nossos coraçõezinhos...

Determinada, com a mochila nas costas, Bruna - que adora um programinha hospitalar - foi assertiva e me convenceu. - Mas, Bruna, acho que o médico vai ficar puto porque eu to indo só 3 dias depois do ocorrido e justo às duas da madrugada... Confiante na classe médica, Bruna não hesitou, chamamos um táxi e seguimos pro Miguel Couto. Lá chegando, não havia sinais de catástrofes noturnas. O único impecilho à nossa entrada eram os funcionários da limpeza que estavam desinfectando o hall de entrada, no ritual conhecido como a Lavagem das Escadarias do Miguel Couto. Esperamos um pouco na calçada com outros familiares. Não adiantaria entrarmos, pois não havia ninguém no guichê. Assim que vimos a atendente retomar seu posto e a água de cheiro escorreu pra sarjeta, entramos.


- Moça, ele caiu da bicicleta e machucou o pé. A moça, uma funcionária pública daquelas com o óculos na ponta do nariz, nos olhou com ternura e lentamente começou a procurar dentre os carimbos que ocupavam o tampo da mesa aquele que melhor se adequava às nossas necessidades. Ortopedia, tuchou na ficha.
- Não moça, não foi osso, foi ferida, olha aqui.
A moça olhou, fez uma cara de felicidade, riscou o Ortopedia e escreveu PS em cima.

Passamos então à etapa seguinte, às portas das entranhas do hospital.
Um senhor, este sim muito simpático, nos encaminhou:
- Ortopedia, esquerda, direita!
- Não, moço, é PS, olha aqui.
- Ah, PS é aqui mesmo então nesta fila (enoooorme).
Lembrei do nosso Frango Feliz e perguntei - E a Ortopedia?
- É ali atrás (sem sinal de fila).
- Então é Ortopedia!
- Esquerda, direita.

Chegando à Ortopedia, nos deparamos com quatro pessoas sentadas, à espera. Lhes perguntamos algo e eles apontaram para o fim do corredor, donde se via uma pessoa toda de branco, com um jaleco, nos fitando com aquela cara de plantonista às duas da madrugada. Ele deu um passo atrás, mas já era tarde, já o tínhamos visto. Esperamos que viesse em nossa direção, pois estavamos à porta da Ortopedia. Lentamente veio caminhando o doutor, um rapaz bem nutrido, cujo perfil Bruna viria a resumir como "playboizinho de merda". Lhe entreguei a ficha, ele me mediu e se encaminhou para o consultório. Fomos atrás. Já que a luz do consultório não acendia, ele resolveu me examinar ali no corredor mesmo.

Lhe expliquei a situação. Em vez de bocejar, o doutor soltou: - E tu acha isso certo!? Faz 3 dias que tu se machucou e tu vem aqui às duas da madrugada!!! (eu ri)
- Desculpa, doutor, fui eu que insisti para ele vir.
- Tá tudo bem aí. Não tem sinal de infecção. Tá tudo normal. É só lavar com água e sabão.
- Quer dizer que tá tudo bem? O inchaço, o pus, tudo em ordem?
O doutor confirmou e, como já tínhamos atapalhado muito, pedimos desculpas pelo inconveniente e resolvemos vir embora. Eu, mais contente que o Frango porque o processo cicatrizacional seguia seu curso normal. Bruna, puta da vida com a receptividade do playboizinho de merda.

Compramos uma breja e fomos pra casa comemorar e esquecer. Mas esta frase continua ecoando na minha cabeça: E tu acha isso certo?! (há quem diga que ele me passava um pito para o meu próprio bem, como quem diz "tem que se cuidar, menino!!! tem que vir na hora", ou "esta hora da madrugada é para emergências! tu pode estar tirando a vez de alguém que realmente precisa ser atendido". mas como não tinha ninguém na fila, o tom da frase e a cara de sono diziam "seo mané! tava tirando meu ronco e tu vem aqui atrapalhar com esta porra desta ferida, caralho!!!)

1 Comments:

At 6:08 PM, Blogger Cassio said...

Grande Tadeu,

1. Espero que as feridas já estejam cicatrizadas e você já esteja bem. Porque mais do que a notícia, a saúde deve sempre estar em primeiro lugar.

2. Parabéns pelo BLOG

3. Parabéns pela sua criatividade!

4. Grande abraço para você! Que eu não vejo há seculos.

 

Post a Comment

<< Home